7.3.12

#novidade: .oztel, o mais recente albergue estiloso de botafogo, é bom antídoto para os preços exorbitantes do rio (RJ)

[O bar é um dos pontos fortes do novo .oztel, no Rio (©felipe moronizi)]


Meses atrás, chegou-me aos ouvidos um zunzum que dava conta de um novo albergue, ou hostel como todos agora falam e escrevem, lá para os lados do bairro de Botafogo, na "Cidade Maravilhosa".

[O novo projeto não passa desapercebido em Botafogo (©felipe moronizi)]

Na época, até tuitei a esse respeito, não muito certo quanto ao que estaria para vir, a não ser o fato de que já então era dada como certa a sua ligação a dois outros projetos existentes, o MeZa Bar e o DoiZ, ambos conhecidos, entre outras coisas, pelos seus bons drinques como dizia a outra.

[Layout personalizado e atrevido, com ilustrações e frases marcantes (©felipe moronizi)]

Pois é, há um novo Z na cidade — depois do primeiro hostel da cidade, instalado no Leblon, ter optado por se chamar Z.Bra, precisamente — que corresponde a .oztel (é assim mesmo a grafia).

[O bar está aberto ao público para atrair cariocas (©felipe moronizi)]

Cada um é para o que nasce, inclusive os viajantes. Confesso que nem é mais uma questão de ter ou não idade; é mesmo porque nunca fiz muito a linha "viajante mochileiro". Mas, de repente, um albergue da nova geração, bem bolado (inclusive em matéria de design low cost), bem localizado e bem intencionado não me deixa (de todo) indiferente.

[O .oztel dispõe de uma área exterior com 120 metros de mata (©felipe moronizi)]

Sobretudo quando acabo de ler uma matéria, baseada num estudo recente com dados de 2011, que aponta o Rio de Janeiro, num conjunto de 30 cidades internacionais analisadas, como a sexta mais cara do mundo no que a diárias se refere (uma média de R$326, sendo que já foram encontrados casos de hotéis de duas estrelas a cobrar diárias de R$600!).

[Os detalhes contam muito, e até mesmo os banheiros são personalizados (©felipe moronizi)]

Por isso mesmo, um endereço descolado, com diárias entre R$45 e R$250 (fora de temporada e dos feriados, fica a ressalva) é uma super boa nova.

[O lounge (©felipe moronizi)]

Idealizado, segundo o press release, por quatro amigos — Andrea Franco (produtora artística), Fabio Battistella (chefe de cozinha, ele também comanda os fogões do MeZa e do DoiZ), Fernando Blower e Paolo Kury (advogados) —, o .oztel não quer ser só mais um albergue, no bom velho esquema de cama lavada e café da manhã. 

[Uma mesa original concebida por Carol Gay (foto de divulgação)]

O lema é "feel good stay", o que, na prática, passa por não limitar a oferta à hospedagem, colocando igualmente o foco na interação, no entretenimento e no conteúdo através de mostras de arte e vernissages, aulas de gastronomia e coquetelaria, aniversários  ou ainda pequenos eventos.

[Outra peça especial do .oztel, o lustresaara (foto de divulgação)]

No fundo, além dos hóspedes de passagem pelo Rio, o .oztel quer também fidelizar uma clientela carioca, apostando num bar público que fica aberto todos os dias e oferece uma carta de drinques caprichados.

[A Suite Paquetá (foto de divulgação)]

Instalado na rua Pinheiro Guimarães, com vista para o Cristo Redentor e a poucos minutos da praia de Copacabana, o mais novo hostel do pedaço quer ainda servir de guia sem cair no mais óbvio. Entre as sugestões de passeio incluem a favela Dona Marta, o baile charme do Viaduto de Madureira, a Vila Mimosa, o baile funk da Rocinha, jogos de futebol e escolas de samba.

[A Suite Amor de Madre (©felipe moronizi)]

Sem ter passado por lá, é claro que fica complicado transmitir maiores impressões, mas, assim à partida, outra coisa que me agrada é ter apenas 48 vagas, repartidas não só por dormitórios (para seis, oito ou 14 pessoas), mas também por seis suites de casal para quem deseja um pouco mais de privacidade e conforto. Todos são personalizados, com layout moderno e diferentes tipos de inspiração.

[Um dos dormitórios (foto de divulgação)]

Nas áreas comuns, além do bar, da sanduicheria ou da sala de televisão, destaque, no exterior, para os 12o metros de mata que vai até ao Morro do Cabrito e que são usados para relaxar e praticar esportes radicais.

Rua Pinheiro Guimarães, 91, Botafogo (RJ), tel. (0)21 3042-1853, diárias entre R$45 e R$250 (fora de temporada e dos feriados)

2.3.12

#gente em destaque: à conversa com josé barattino, chef do emilano, a propósito da 2ª edição do market day (SP)

[José Barattino, o chef que dá a cara pela cozinha sustentável no Brasil (foto de divulgação)]

Nem de propósito.

Há tempos que venho adiando, cheio de remorsos, um post para transcrever pelo menos parte da conversa super interessante que tive com o josé Barattino, chef do restaurante do hotel Emiliano, quando da minha última passagem por São Paulo.

Acho que me faltava um pretexto de peso. Faltava, escrevi bem, pois não falta mais.

[Barattino, ao centro, com parte dos pequenos produtores que participam no Market Day do Emiliano (foto de divulgação)]


No próximo domingo, dia 4 de março, o Emilano vai acolher a 2ª edição do Market Day, disposto a repetir o sucesso e a conseguir uma adesão ainda maior à ideia de promover um contato direto entre consumidores e pequenos produtores.

[Diversidade de ingredientes, mas um princípio comum: são todos orgânicos (foto de divulgação)]

Com a devida licença poética, o evento lembra, com suas bancas de toldos listrados, uma típica feira de rua, mas em versão refinada (afinal estamos a falar de um dos endereços mais chiques da capital paulista), um pouco à imagem e semelhança dos mercadinhos gourmets que o nosso imaginário associa ao sul da França. 

[A ideia do Market Day é levar o consumidor a contatar diretamente com os pequenos produtores (foto de divulgação)]

Claro, o Market Day acaba sendo também uma vitrine para o Emiliano dar a conhecer suas tendências gastronômicas, seu restaurante e sua filosofia,  mas é mais do que apenas uma oportunidade de fazer negócio ou do hotel fazer média à conta de uma ação bacana.

[Os vinhos biodinâmicos são outra das apostas do Emiliano no Market Day (foto de divulgação)]

Aberto ao público, este evento quer, antes de tudo o resto, conscientizar o consumidor sobre a importância de uma boa alimentação e pregar os benefícios dos ingredientes orgânicos produzidos segundo os princípios da agricultura biodinâmica.

[Barattino gosta de conhecer a origem dos produtos que utiliza em sua cozinha (foto de divulgação)]

Dito assim pode até parecer um monte de "palavrões" só para impressionar, mas quem conhece José Barattino sabe que não é da boca pra fora. Há quase sete anos no Emiliano (antes de ser o titular, ele integrou a equipe de Francesco Carlo), Barattino tornou-se, nos últimos tempos, um dos nomes mais engajados da cozinha sustentável no Brasil.

[As sacolas de grife Emiliano depois de "fazer" a feira (foto de divulgação)]

Uma bandeira que ele carrega de bom grado: "Eu nasci e vivi sempre em cidade. Já sou de uma geração de cozinheiros que não mata porco, galinha... Isso começou a me incomodar", conta o chef.

No início, sua preocupação não tinha tanto a ver com sustentabilidade, mas sim com qualidade. Barattino queria fazer uma cozinha de qualidade, conectada com a sazonalidade, e isso obrigou-o a olhar para os ingredientes de outra forma: "Eu tenho de estar preocupado com a abobrinha desde o primeiro momento, logo quando ela é produzida, mas o brasileiro ainda não está habituado à sazonalidade", desabafa.

O primeiro passo foi garimpar uma lista de pequenos fornecedores no estado de São Paulo que se mostrassem dispostos a produzir organicamente e a abastecer diretamente o Emiliano. Não foi fácil, mas a parceria deu tão certo que hoje são já cerca de 700 os pequenos produtores reunidos no projeto Família Orgânica. Com a ajuda do Emiliano, eles não só produzem de forma sustentada (apostando inclusive em novas sementes), como lucram com um negócio de delivery nos Jardins, em São Paulo.

[A sala do restaurante do Emiliano (foto de divulgação)]

É um trabalho ainda com muito chão pela frente e Barattino tem consciência disso mesmo: "Temos uma potencialidade de ingredientes muito grande, mas há no Brasil uma grande deficiência histórica a esse nível. Não temos ainda uma culinária forte. Mas vai chegar uma hora em que poderemos dizer que temos uma gastronomia com a cara do Brasil", remata confiante.

 
[A capa do Paladar, de 16 de fevereiro, em que se falou de uma nova linha de produtos brasileiros (direitos reservados)]

E não está sozinho. Alex Atala, outro nome incontornável da sustentabilidade verde e amarela, foi notícia há pouco tempo, no caderno "Paladar" do Estadão, por se ter tornado curador de Retratos do Gosto, uma nova linha de produtos e ingredientes brasileiros de pequenos produtores. É a bola da vez.

Mas volto a Barattino. Por enquanto, sua batalha em prol de uma cozinha mais autêntica passa por iniciativas como o Market Day do Emiliano e por criar para o restaurante "menus com um visual e uma delicadeza mais naturais que permitem a inclusão de ingredientes como raiz do lírio-do-brejo [sabor floral] ou serralha [planta comestível muito rica em vitaminas e que melhora a digestão]".

Afinal, como bem diz o chef, "hoje um restaurante é, cada vez mais, uma experiência lúdica".

Market Day | Hotel Emiliano, rua Oscar Freire, 384, São Paulo, tel. (0)11 3069-4369. O evento acontece dia 4 de março de 2012, entre as 12.00 e as 16.00

29.1.12

#roteiro rápido: um sábado (mas também pode ser outro dia) relax na fradique coutinho, vila madá (SP)

[Grafite da Vila Madá (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Eu sei.

Antes mesmo de lerem o resto, muitos já vão me condenar só pelo título deste post. Sábado relax, na Vila Madalena?!?!

Concedo que, assim de primeira, não é uma evidência mesmo. O mapa da mina de Vila Madá há muito que foi descoberto e o bairro boêmio e artístico (não, eu jamais vou aderir a essa modinha infame de escrever "artsy" para parecer cool) é agora uma quase unanimidade, o que, claro, tem seu preço...

[Um dos parques da Vila Madá, só para provar que a vida continua bucôlica por ali (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

... sobretudo na hora de achar uma vaga para o carro ou de conseguir uma mesa...

Mas não é impossível. Longe disso.


Umas das ruas que mais gosto de percorrer, de frente para trás, de trás para a frente, é a Fradique Coutinho. 

São várias as opções por ali e muitas as combinações possíveis, mas um sábado relax, para mim, virou sinônimo de três rituais bem simples.

[Balcão do AK/Vila (©joão miguel simões todos os direitos reservados)]

#1 Um almoço tardio e preguiçoso no Ak/Vila, da chef Andrea Kaufman, que inaugurou o ano retrasado. Eleito logo de caras como o melhor de São Paulo em 2011/12, na categoria "variado", pela edição "Comer & Beber" da Veja, o Ak/Vila é charmoso sem ser pretensioso, tem uma clientela classuda e um custo-benefício razoável para a média paulistana.

[O AK Burger (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

O cardápio é rotativo e tem várias coisas boas, mas, confesso, eu vou ali mesmo é para me regalar com o Ak Burger, que leva queijo brie, pastrami de língua, cogumelos e cebola grelhada (vários acompanhamentos, mas eu vou mesmo de batatas rústicas). Delicinha!

[A torta do AK/Vila (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Na sobremesa, fico na dúvida cruel: como ou não? Quando eu chegar ao ritual #2 vão perceber porquê... Mas, o mais certo é não resistir mesmo à pecaminosa (de tão boa) torta de musse com caramelo salgado. 

[A Feira Moderna (foto de divulgação)]

#2 A dúvida tem uma razão bem simples de explicar: é que justo na porta ao lado do AK fica a Feira Moderna, o único lugar em São Paulo (que eu saiba) onde se vende sorvete da Cairu!

[A Feira Moderna (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Já falei aqui da Cairu, que descobri em Belém do Pará, e não é segredo que sou fissurado em seus sorvetes. Claro, a oferta é mais limitada na Feira Moderna (há açaí, tapioca, muruci, carimbó, doce de leite...), mas já está valendo.

[A Feira Moderna (foto de divulgação)]

O café da Feira Moderna, o Astro comandado por dona Neuza, também serve comidinhas, mas nunca provei. Para mim, além dos sorvetes, a pedida é mesmo a loja, onde encontro objetos, vestuário e calçado procedentes de várias regiões do Brasil e do mundo, executados com primor pela dona, a Suely Galdino, e por artesãos e artistas de mão cheia.

[A fachada do casarão que abriga o Coffee Lab (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

#3 Já deu para reparar que ainda não fiz uma única menção à palavra "café"? 

[Jeitinho de quintal da vó, não? (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Pois, foi de propósito.

[Os detalhes fazem a diferença, como o São Benedito e sua xícara diária de café (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

É que, por mais voltas que eu dê na Fradique Coutinho, café eu só tomo num lugar: Coffee Lab.

[Coffee Lab (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Comecei a frequentar o Coffee Lab bem na época em que ele foi eleito o melhor café de São Paulo pelo júri da edição "Comer & Beber 2011/12" e logo se notou um acréscimo do movimento de curiosos e aficionados.

[O café expresso (R$4) degustado numa xícara maior (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Projeto de Isabela Raposeiras, a barista brasileira do momento que teve seu blog agregado à página da folha.com (não é para todos), o Coffee Lab é um laboratório de torra, degustação e preparação de cafés e isso, meus caros, faz toda a diferença.

[Também não faltam comidinhas como o Tostex, feito em pão de brioche, com queijo de Minas a R$9 (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

O lugar não é grande, mas tem jeito de sala de estar, super informal, acoplada à cozinha onde os baristas, de macacão cinza, recebem os pedidos, explicam cada coisa com a maior das boas vontades e preparam tudo, à vista de todos, na hora.

[O aeropress, um café coado sob pressão a R$6 (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Raposeiras trabalha com micro-lotes de café e pratica uma abordagem eco-social, o que equivale a dizer que não usam canudos nas bebidas (por serem fabricados com petróleo), não vendem garrafas de água (água filtrada à disposição e sem custos) e reciclam o vidro, só para dar alguns exemplos.

[O Shakeratto (R$7), café gelado misturado com água gaseificada, ótimo nos dias de calor (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

E não é muita frescura só para beber um café?

[Frapê de Cappuccino, que leva ameixa seca como emulsificante natural (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Não acho. Para mais, à lista de cafés (podem ser pedidos à la carte ou apreciados em cinco rituais de degustação e harmonização, todos a R$5, para aprender a perceber as diferenças) somam-se ainda umas quantas comidinhas bem saborosas como o tostex de queijo de minas, o biscoito de polvilho com cream cheese temperado com flor de sal, o brigadeiro de café ou o sagu de café com creme de baunilha.

E para um sábado relax está de bom tamanho, certo?  

27.1.12

#gastronomia: à conversa com vítor sobral, seis meses passados sobre a abertura da tasca da esquina (SP)

[O brinde de Sobral e parte de sua equipe na festa de abertura da Tasca (acervo pessoal)


E já passaram seis meses.


[Sobral, fotografado à porta da Tasca da Esquina (foto de divulgação)]

Antes disso, já eu falava aqui da Tasca da Esquina e tentava trocar por miúdos — para usar uma expressão bem lusa — o parentesco próximo das tascas e tabernas portuguesas com os botequins brasileiros...

[A sala que fica logo à entrada, junto à cozinha (©luna garcia)]

Mas os tempos são outros. Os botecos passaram de pés-sujos a pés-limpos e as tascas e tabernas de toscas têm agora muito pouco ou nada. 

[A "segunda" sala  (©luna garcia)] 

Pelo contrário, são lugares agradáveis à vista, não tão baratos assim e com chefs que se preocupam, sem perder o foco, em dar à cozinha popular e aos petiscos um tratamento mais autoral, tornando-os também, pelo uso da técnica, mais leves e adaptados aos tempos (e paladares) de hoje.

[As pimentas na horta vertical, que usa madeira de demolição (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

Quando ali estive pela primeira vez, acho que bem no começo de outubro do ano retrasado, logo de caras gostei da localização (um casarão que não fica numa esquina da Itu, mas quase) e das soluções adotadas pela decoradora portuguesa Paula Moura para encontrar um meio termo entre a essência da matriz lisboeta e a necessidade de afirmação da filial paulistana.

[Papel pardo nas mesas e poltronas de couro verde, tal como em Lisboa (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

Por um lado, reconheci as poltronas de couro verde-azeitona, a cozinha à vista, o papel pardo a fazer as vezes de toalha, as caixinhas de madeira em miniatura usadas para o pão e um ou outro rosto familiar que transitou de Lisboa para São Paulo — uma das coisas de que Sobral mais se orgulha é a de ter uma equipe coesa e afinada que, na sua maioria, já o acompanha há 16, 17 anos.

Por outro lado, tive de me acostumar àquela nova "geografia" em "L" (ainda que contíguas, acabam por ser duas salas, com uma terceira, mais pequena e apenas para grupos até 12 pessoas, no andar de cima), mas o toque brasileiro da madeira de demolição, os tijolos aparentes e a horta vertical depressa me fizeram sentir numa casa longe de casa.

Desde então, estive ali mais vezes, mas, curiosamente, sempre ao almoço e em alturas que coincidiram com a passagem de Sobral por São Paulo — a base do chef continua sendo em Lisboa, onde terá inclusive, a partir de Fevereiro, uma nova escola de gastronomia, mas, vira e mexe, vem até São Paulo para acompanhar tudo de perto e realizar jantares temáticos.

[Lascas de bacalhau com batatas e ovo (©luna garcia)]

Na verdade, há anos que Sobral vive dividido entre Portugal e o Brasil, mas agora é diferente. Nestes últimos meses, ele tornou-se o primeiro o chef português a abrir uma filial de um restaurante português em solo brasileiro. O fato não passou ao lado da revista portuguesa "Wine-A Essência do Vinho", que elegeu Sobral como "Personalidade do Ano na Gastronomia" em 2011. 

"70% de tudo o que consumimos na Tasca de São Paulo vem de Portugal. O azeite é todo português [Andorinha, Edição Limitada de 2011], o arroz é todo português, o sal também... O papel higiênico é Renova, os tachos são Silampos, a porcelana e os talheres da Vista Alegre...", enumera Sobral, que, num futuro próximo, quer levar seu empreendedorismo mais longe e ter a sua própria importadora.

Do mesmo modo que muitos dos chefs brasileiros se queixam da falta de apoio e incentivo do governo para dar maior visibilidade no exterior à gastronomia brasileira, também Sobral acusa o fato de estar praticamente sozinho em sua empreitada de levar um pouco da nova gastronomia portuguesa para o Brasil.

[As lulas salteadas com palmito, um petisco (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

Sem sócios brasileiros, Sobral não poderia ter aberto a Tasca da Esquina em São Paulo — por falar nisso, a tasca acaba de ganhar um novo sócio de peso, o empresário Gustavo Mello de Almeida. Nisso ele é peremptório, mas também o foi quando, logo no começo, demarcou seu território e deixou bem claro que vinha para demonstrar aos brasileiros que cozinha portuguesa é muito mais do que só bacalhau.

[O Bacalhau ao Forno (©luna garcia)]

Esse era, aliás, meu maior receio, que Sobral acabasse cedendo ao "mercado" e que viesse para o Brasil fazer mais do mesmo. Mas bastou bater o olho nos cardápios — de petiscos, pratos e bebidas — para suspirar de alívio... 

[O cardápio (clique na foto para ver maior)]

"Muitos dos clientes brasileiros que vêm à Tasca da Esquina — e alguns chegam a vir mais de uma vez na mesma semana — já estiveram na Tasca de Lisboa e estão ávidos de provar tudo", conta Sobral. Um dos melhores elogios veio precisamente de uma cliente que chegou junto a si e lhe disse: "Comi raia em Lisboa e a daqui estava igual!"


[O pão em suas típicas caixas de madeira e o ambiente ao almoço (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

Por acaso, a raia cozida em azeite (R$56) foi um dos pratos que também provei, mas não é dos meus preferidos. 

[Um pedaço de pão e azeitonas temperadas (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

Aliás, na Tasca, eu gosto sobretudo dos petiscos — à chegada, já sou feliz com o pão, as azeitonas temperadas e o queijo de mistura, seguindo depois para os bolinhos de bacalhau (da primeira vez estavam sequinhos, mas um pouco salgados) e para os embutidos portugueses (gosto de tudo, da morcela com maçã à alheira corada e farinheira com favas; pena que não venham de Portugal, mas Sobral assegurou-me que, até ver, sua importação é inviável...).

[O bolinho de bacalhau (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

Nos pratos, e dependendo da saudade de casa, eu acabo preferindo os do dia mesmo, com possibilidade de me regalar com uma porção de bacalhau com natas (à 6ª, R$42) ou de filetes de peixe com arroz de tomate (à 3ª, R$42). Comida com nome e gosto de casa.

[Prato do dia à 6ª: bacalhau com natas (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

No capítulo das sobremesas, gosto das farófias (claras cozidas em leite perfumado, parecem nuvens que se desfazem na boca, R$12), servidas em potinhos, do pudim Abade de Priscos (nesta versão da Tasca leva molho de maracujá e biscoito crocante, R$15) e, claro, do Creme Queimado (R$12,50).

[O Pudim Abade de Priscos com molho de maracujá (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

Mas isto sou eu. Passados seis meses, Sobral já tem noção do que resulta e não resulta em São Paulo: "Os petiscos estão a ser um sucesso e com o bacalhau tudo resulta. Mas o requeijão não funcionou [o requeijão português é obtido a partir do soro do leite e nada tem a ver com a versão cremosa brasileira), o prego e a alhada de camarão também não [em vez de contrafilé, tida ainda como carne de "segunda" no Brasil, o prego usa filé mignon no pão]".

[O Creme Queimado, outra sobremesa da Tasca (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

E os ingredientes, há diferenças? "Por norma, tudo aqui tem muito mais água, o que acaba por se refletir no gosto das coisas. Mas resolvo isso com alguns truques simples, secando a batata, por exemplo, ou assando o tomate", confidencia Sobral, que recusa "abrasileirar" seu sotaque luso para se fazer entender mais facilmente no Brasil mas não tem o menor problema em harmonizar certos pratos de seu cardápio com ingredientes daqui, "como a mandioquinha ou o quiabo", que muito aprecia.

[As farófias, claras cozidas em leite perfumado, vêm em potinhos e pedem um bom Porto (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]


Outro quesito importante numa tasca que se preze é o dos vinhos. O Brasil está, de um modo geral caro, mas poucas coisas me chocam tanto quanto o preço exorbitante dos vinhos importados (exceção feita aos chilenos e argentinos, mais em conta por não serem tão taxados). 


[O café, expresso, em vez de biscoitinhos ou trufas vem acompanhado de um shot de arroz doce com canela (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)] 


Minto. Choca-me ainda mais ver como muitos brasileiros não estão nem ai para o preço e pagam, sem pestanejar, o triplo ou mais do seu valor real no país de origem  — dou um exemplo: uma leitora carioca, fã dos vinhos verdes portugueses, queria uma dica e eu indiquei o Muros Antigos, excelente custo-benefício, bem cotado inclusive pelos críticos em 2011, que em Portugal custa aproximadamente R$11. Pois, numa loja de vinhos do Rio o mesmo vinho é vendido por praticamente R$50! E não é dos piores.

[O espumante Luís Pato rosé costuma ser servido à chegada (©joão miguel simões, todos os os  direitos reservados)]

Na Tasca, Sobral dá grande preferência aos vinhos e espumantes portugueses, servidos à taça ou à garrafa, e tem tido a preocupação de os manter numa faixa de preços bastante aceitável para os padrões de São Paulo. Até porque a Tasca acaba sendo uma vitrine para muitos produtores de vinhos portugueses e uma forma dos brasileiros se aventuraram a degustar novos rótulos.

[A adega da Tasca paulistana (©luna garcia)]

Como português, de quando em vez voluntariamente expatriado no Brasil, posso até ser suspeito, mas agrada-me a ideia de saber que há uma tasca, numa quase esquina de São Paulo, onde conforto não tem sido sinônimo de acomodação.


Alameda Itu, 225, Jardins, São Paulo, tel. (0)11 3262-0033, de ter. a sáb., almoços entre as 12.00 e as 15.00 e jantares entre as 19.00 e as 00.00; ao dom., entre as 12.00 e as 16.00. Além das opções "Há Lá Carta", existem quatro degustações, ao critério do chef, entre R$78,50 e R$135 por pessoa
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