22.5.11

#comidinhas: sukiyaki, programa de domingo na liberdade (SP)

[Rua Galvão Bueno, Liberdade, São Paulo (foto D.R.); abaixo: feirinha da Praça da Liberdade (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Sem me dar conta, nos últimos tempos, sempre que estou em São Paulo com amigos, mais cedo ou mais tarde, o programa repete-se. Acho mesmo que se tornou uma espécie de ritual domingueiro — um ritual tardio, acrescento, como se quer num dia de consentida, e saborosa, preguiça — e dou graças por isso.

Primeiro porque domingos, a partir do final da tarde sobretudo, não são exatamente de minha predileção; segundo porque, graças ao sukiyaki, encontrei finalmente uma razão de peso — para lá do desejo súbito de comer um legítimo Melona, o picolé coreano de-li-ci-o-so de melão que virou uma espécie de mania paulistana anos atrás — para ir até à Liberdade num domingo. 

O bairro, desde que se comemorou o centenário da imigração japonesa em 2008, melhorou em vários aspetos, mas, sejamos sinceros, continua a mesma (e não tão boa assim) bagunça de sempre. Gente a mais, vagas a menos (por isso, o metrô acaba sendo um bom recurso), lixo jogado no chão e, para quem não conhece bem, aquela dor de cabeça na hora de eleger um restaurante que valha realmente a pena.

Ainda assim, há qualquer coisa na Liberdade que me atrai. Talvez porque, como tão bem escreveu Bernardo Carvalho em  O Sol se Põe em São Paulo, "a Liberdade é um desses bairros (...) que, embora em menor escala do que nas regiões mais ricas, e por isso mesmo de um modo às vezes até simpático, ressalta no mau gosto da sua rala fantasia arquitetônica o que a cidade tem de mais pobre e de paradoxalmente mais autêntico: a vontade de passar pelo que não é".

Há coisa de dois meses, veio parar em minhas mãos uma matéria providencial do jornal O Globo em que, precisamente, se sugeria um roteiro na Liberdade seguindo as dicas de um insider, no caso o chef emergente Thiago Sakamoto, do Shaya. Lendo, confirmei coisas que já sabia, tipo as comidinhas orientais da feirinha da Praça da Liberdade ou a paragem obrigatória na padaria Itiriki (rua Galvão Bueno, 24), famosa pelos pães e doces, mas também por seus sucos. Outras desconhecia e vou deixar para testar numa próxima oportunidade (já agora, para quem quiser, a matéria se encontra online aqui).

Sem surpresa, constatei que o sukiyaki da Liberdade não aparece citado na listinha "vale a pena" de Sakamoto. Não acredito ser o caso do jovem chef de ascendência nipônica, claro, mas não é raro encontrar apreciadores de comida japonesa que nunca ouviram falar, tão pouco degustaram o sukiyaki.

[O sukiyaki é preparado na mesa, à nossa frente, pelo garçom ou pelos próprios clientes para quem seu preparo não tem mais segredos (©joão miguel simões)]

E é um prato aparentemente simples, mas, garanto, muito saboroso. A receita original remonta ao Japão medieval e rural, em que os camponeses tinham por hábito levar para o campo batatas doces que depois assavam com a ajuda de um rastelo (e sukiyaki quer dizer isso mesmo: assar com um rastelo). Com o tempo, como sempre acontece, eles foram agregando outros legumes, outros ingredientes e molhos, começando, inclusive, a utilizar as panelas de ferro na preparação do prato em datas festivas. E foi assim, parece, que o sukiyaki se tornou um prato para reafirmar laços familiares e afetivos, pois todos comiam da mesma panela.

[©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

Existem, óbvio, variações, mas, por regra, na tal panela entra filé migon fateado, folhas de acelga, cebola, moyashi (brotos de feijão), naga negui (mistura de cebolinhas), cogumelos Shiitake, itoh konhaku (macarrão de batata) e tofu; já no molho vai shoyu, saké e mirim. 

[©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

Na versão que costumo compartilhar com meus amigos no almoço fora de horas de domingo, o chamado sukiyaki especial, consigo distinguir pelo menos mais dois ingredientes: gema de ovo e kanikama. É um prato rápido, mas por fases — primeiro vai a carne, depois os vegetais e por ai vai — e em que boa parte do prazer está também em assistir à sua preparação na nossa frente.

[©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

É possível que existam outros endereços na Liberdade, mas costumo ir num velho Food Center que não tem erro, na rua da Glória. O lugar parece saído de um romance noir, com entrada por um pequeno e discreto prédio, sendo preciso depois subir por elevador até ao primeiro piso. Na sala 13, a Sukiyaki House. 

[©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

A decoração é sem graça e clichê, como quase sempre tudo ali, mas, detalhe importante, não fazem cara feia quando chegamos para almoçar quase a meio da tarde e entre os clientes há sempre famílias inteiras de locais, o que não deve ser um mau sinal, certo?

À saída, não sobra apetite para muito mais, mas eu sempre arranjo maneira de deixar um pequeno espaço para a sobremesa, que tomo já rua. É, eu acabo não resistindo e na volta, antes de deixar a Liberdade, mato o desejo de picolé de melão. Até à próxima.

Rua da Glória, 111, sala 13, Liberdade, São Paulo, tel. (11) 3106 4067, seg., ter., qui. e sex., almoços entre as 11.30 e as 14.30 e jantares entre 18.00 e as 22.00; sáb., almoços entre as 11.30 e as 16.00 e jantares entre 18.00 e as 22.30; dom., entre as 11.30 e as 22h. Uma média de R$35 por pessoa.

19.5.11

#atrações irresistíveis: inhotim (MG)

[Inhotim, ©joão miguel simões, todos os direitos reservados]


A 9º Semana de Museus, que começou no dia 17 e vai até ao dia 22 de Maio, foi o pretexto que precisava para escrever sobre Inhotim, perto de Belo Horizonte. Claro que, a propósito da comemoração, o centro de arte vai ter uma programação especial — que pode ser consultada aqui —, mas eu quero mesmo é falar do projeto e do lugar. 


Só para terem idéia, entre 2008 e 2010, já fui três vezes (aliás, as fotos que ilustram este post foram, precisamente, feitas nas diferentes visitas). Detalhe: não moro em Belo Horizonte; tão pouco em Minas.


[Inhotim, ©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

O fascínio, que não é só meu — o centro tem recebido inúmeros prêmios — é fácil de explicar. Por muito que a Serra do Curral seja o símbolo mais amado da capital mineira, dando-lhe o entorno verde que tanto preza, a verdade é que são cada vez mais os belo-horizontinos que, quiçá em busca de maior sossego, estão optando por morar fora do perímetro urbano, em lugares como Nova Lima, ou até mesmo mais distantes como Brumadinho, Florestal ou Esmeraldas. 

Mas nem é preciso chegar a tanto. Basta que se pense nesses lugares — todos eles num raio inferior a 100 quilômetros para quem está em Beagá — como uma boa sugestão de evasão para mudar de ares e de rotina no final de semana.



[Inhotim, ©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

O que me surpreende mesmo, para ser sincero, é que ainda haja em Beagá quem, mesmo tendo à disposição inúmeros hotéis-fazenda ou até um ônibus que permite ir e vir no mesmo dia (sáb., dom. e feriados), não conheça o Centro de Arte Contemporânea do Inhotim, em Brumadinho, a pouco mais de uma hora de carro da capital.




[Inhotim, ©joão miguel simões, todos os direitos reservados]


A quem não foi, só tenho uma coisa a dizer: não sabem o que estão perdendo. Falo sério. Como tantas vezes acontece, talvez o nome ‘arte’ ou ‘centro cultural’ sirva de desculpa para explicar a relutância de alguns, mas trata-se de um dos projetos mais inovadores dentro do seu género. Para começar porque ocupa cerca de 40 hectares de uma vasta propriedade de 120, pertencente ao magnata da mineração Bernardo Paz, da Itaminas. Desde 1980, ele tem vindo a amealhar uma coleção de arte contemporânea nada desprezível, tanto que, a dada altura, o acervo atingiu tal dimensão que merecia ser mostrado em público. 


[Inhotim, ©joão miguel simões, todos os direitos reservados]


Foi o que fez: primeiro de forma condicionada, depois já a título permanente, a partir de Outubro de 2006, no centro tal como hoje o vemos.


Com ligação às mais importantes bienais de arte, o Inhotim vem expondo o trabalho de vários artistas brasileiros e internacionais, de forma permanente ou itinerante, em 14 galerias de arquitetura moderna – começaram por ser apenas 9 – ou a céu aberto no parque ambiental, que deve seu paisagismo original a Burle Marx.



[Inhotim, ©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

Aliás, é esta combinação feliz e pouco usual – pelo menos com esta dimensão – entre a natureza, com um cuidado primoroso que passa pela preservação de espécies botânicas brasileiras, e arte, que faz de Inhotim um lugar único. Tão especial que, por sinal, colocou a comunidade de Brumadinho, até então quase exclusivamente famosa por seu forró de sexta-feira no terminal da rodoviária, no mapa internacional. 



[Inhotim, ©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

Que ninguém tenha dúvidas: o Inhotim é muito bom em qualquer parte do mundo – conta com uma vasta e bem preparada equipa jovem, acessos facilitados e um excelente restaurante (o bufê, muito farto e saboroso, sai por cerca de R$50 por pessoa, existindo outras opções mais em conta) —, mas está a meros 60 quilômetros da capital mineira. 

[Inhotim, ©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

É programa para um dia inteiro, capaz de agradar a gente de todas as idades e formações. Daqueles em que se fica com as pernas doendo de tanto caminhar, mas de que ninguém reclama.

Rua B, 20, Inhotim, Brumadinho, Minas Gerais, tel. (31) 3227 0001, de ter. a sex., entre as 9.30 e as 16.30; aos sáb., dom. e feriados, entre as as 9.30 e as 17.30. Ingresso: R$20. Consultar os horários da linha de ônibus BH-Inhotim em www.saritur.com.br

16.5.11

#restaurante: banzeiro, manaus (AM)

[Entrada do Banzeiro, em Manaus, e uma de suas especialidades, a moqueca de pirarucu; abaixo: chef Felipe Schaedler (fotos D.R.)]

A proximidade ao rio, traz-me à lembrança que muito do mérito da cozinha manauara, assumidamente mestiça, assenta na riqueza dos peixes amazônicos. Para quem está habituado à textura e sabor dos peixes de mar, pode estranhar um pouco, mas vale a pena dar um voto de confiança ao tambaqui, ao pirarucu e ao tucunaré (só para citar os mais apreciados). 

Existem várias casas recomendadas para os degustar, em caldeirada, assados e até em versão defumada, mas o restaurante Banzeiro, a funcionar no afastado bairro da Nossa Senhora das Graças desde Dezembro de 2009, é, graças a Felipe Schaedler, a grande sensação do momento para provar pratos regionais com um toque de autor. Foi o que fiz com uma excelente moqueca de pirarucu — sai por R$61,90, muito bem servida, com pirarucu defumado, leite de coco, banana e castanha (além de pirão, arroz e farofa a acompanhar) — e um sorvete de tucumã, o fruto de uma palmeira amazónica, que os manauaras têm por hábito comer às lascas, dentro de um pão, e que qualquer lanchonete da cidade serve com o nome sugestivo de x-caboclinho.

Ainda sobre Schaedler, acrescento que é muito jovem, mas, apesar de catarinense, fincou os pés na capital amazonense e, depois de estagiar em São Paulo e Belém, está dando mostras de que pode elevar a cozinha manaura a um grau maior de sofisticação.


Rua Libertador, 102 (Nossa Senhora das Graças), Manaus, tel. (92) 3234 1621, de seg. a sáb, almoços entre as 11.30 e as 15.00 e jantares entre as 18.30 e as 23.30, aos dom., apenas almoços até às 17.00, uma média de R$50 a R$70 por pessoa

4.5.11

#restaurante: a geleia de pimenta do chef dantas (MA)

[Chef Dantas (abaixo, foto de PSR/Rotas), que também é pintor (em cima, à dir., foto de JMS), reclama a autoria dos pasteizinhos servidos com geleia de pimenta, mas não há restaurante em São Luís que não tenha copiado a idéia (em cima, à esq., foto de PSR/Rotas)

O chef Dantas, que também pinta nas horas vagas, é uma figura incontornável na gastronomia de São Luís, capital do Maranhão, onde comanda duas casas: o Maracangalha, mais seleto e recatado no bairro da Ponta do Farol, e o Porto Maracangalha, que só abre nos finais de semana para aproveitar a animação da Avenida Litorânea. 


Cozinheiro-alquimista, Melquiades Dantas de Araújo Filho, nascido no Rio Grande do Norte mas há mais de três décadas no Maranhão, diz que herdou o talento intuitivo para lidar com ervas e temperos de sua mãe, Gerci Brandão de Araújo. Sem grandes concorrentes à altura, Dantas habituou-se a receber e a ciceronear em seus restaurantes figuras bem conhecidas, de cantores a atores, onde se inclui até o ex-presidente Lula e a apresentadora Ana Maria Braga. Aliás, assumidamente vaidoso e muito falador, Dantas teve sua coroa de glória ao ser convidado do programa "Mais Você", da Globo, para ensinar sua receita de torta de caranguejo na frigideira.


Em seu receituário distinguem-se ainda outros pratos como a carne de sol ao molho de leite (sai por R$85, eleito Prato da Boa Lembrança em 2010), mas sua fama maior vem de uma entrada criada por si e cujo segredo guarda a sete chaves — o que não impediu meia cidade de a copiar e imitar. É ele o autor dos famosos pasteizinhos, que levam recheios variados como queijo ou carne, servidos com uma geleia de pimenta muito especial. Hoje, a dita geleia é muito utilizada dentro e até fora do Brasil, mas Dantas não perde o prumo e garante que igual à sua é difícil. Ou não tivesse a mesma uma inspiração quase divina:  certa noite sonhou com a receita e quando acordou já estava pronto para a executar. Simples assim.


Maracangalha | Rua Mearim, 13, Quadra III, Lote 12, São Luís, tel. (98) 3235 9305, de seg. a qua., entre as 12.00 e as 00.00, de qui. a sáb., das 12.00 às 01.30, aos dom., entre as 11.30 e as 17.00, uma média de R$50 a R$70 por pessoa
Porto Maracangalha | Avenida Litorânea, 3 

1.5.11

#gente em destaque: carla pernambuco em versão televisiva

[Carla Pernambuco, conhecida pelos restaurantes Carlota e pela delicatessen Las Chicas, comanda agora o programa "Brasil no Prato", transmitido pelo canal a cabo Bem Simples (fotos D.R.)]

Da gaúcha Carla Pernambuco já quase tudo foi dito ou escrito. Inclusive que antes de se tornar cozinheira conhecida foi atriz e jornalista ou que foi só no regresso de uma temporada com o marido, fotógrafo, em Nova Iorque (cidade de sua predileção até hoje), que decidiu se aventurar, para valer, no mundo dos tachos e panelas. Primeiro abriu, num sobradinho do bairro paulistano de Higienópolis, o Carlota, cuja proposta de cozinha contemporânea (mas com um gostinho inequívoco a comida caseira, ou melhor dizendo, a comfort food) se veio a revelar uma aposta certeira. E deu tão certo que logo inaugurou, à imagem e semelhança da matriz, um outro Carlota no Rio, na disputada rua Dias Ferreira (Leblon), seguindo-se recentemente, em parceria com Carol Brandão, o Las Chicas, a mais nova delicatessen de Pinheiros, também em São Paulo.


Já tive o prazer de almoçar no Carlota, quer no Rio, quer em São Paulo; falta-me conhecer o Las Chicas, o que farei, por certo, quando voltar a São Paulo. Até lá, no entanto, a boa nova é que Carla Pernambuco acaba de estrear, no canal a cabo Bem Simples (uma franquia do argentino Utilisima, que no Brasil integra o pacote do Fox Life), o programa "Brasil no Prato".


[Restaurante Carlota, em São Paulo e no Rio, onde serve sobremesas já famosas como o petit gâteau de doce de leite ou o suflê de goiabada (fotos D.R.)]

As gravações da primeira temporada (um total de 26 episódios, de 30 minutos cada) decorreram em Buenos Aires, mas Carla, que se mostra bem à vontade em seu novo papel, fez questão de supervisionar tudo e de ter uma palavra a dizer não só no conteúdo, mas também no cenário, no figurino e no nome.

[Inaugurada no começo deste ano, Las Chicas, no bairro paulistano de Pinheiros, é a mais nova aposta de Carla Pernambuco, com comidinhas simples e descomplicadas (fotos D.R.)]

No repertório vão entrar receitas bem brasileiras, como pão de queijo, e outras que nem tanto, mas sempre tendo em atenção o gosto nacional. Aliás, o canal Bem Simples pretende exibir cada vez mais formatos originais em língua portuguesa e além da chef gaúcha recorreu ainda, entre outros, a Rogério Shimura (do D.O.M) e Ana Zita Fernandes (da Barbarella Bakery) para comandar "A Confeitaria" ou a Carole Crema (da La Vie en Douce) para apresentar a segunda temporada do "Cozinha Caseira".


Quem não tiver o Bem Simples, pode assistir aos vídeos do "Brasil no Prato" aqui.

28.4.11

#gente em destaque: beagá (MG) por ronaldo fraga


[Ronaldo Fraga, designer mineiro, fotografado em sua loja da Savassi, Belo Horizonte (fotos de MGC/Rotas)]

Há tempos, em uma das minhas muitas incursões por Belo Horizonte, tive a oportunidade de conhecer e de bater um papo com o designer Ronaldo Fraga. Natural de Beagá, a moda de Fraga já ganhou o Brasil e o mundo, mas ele faz questão de manter sua base na capital mineira, onde, aliás, possui uma loja de conceito tão original quanto delicioso (rua Fernandes Tourinho, 81).


Fraga é uma figura, afável e sem vedetismos, que começou por ter sua loja em Pompeia, mas com as crescentes demolições no bairro acabou por se mudar para a atual localização, na Savassi. Criou uma loja à sua medida, que vai mudando em função das coleções e das peças nas araras. Com uma linha muito própria e acessível, onde o humor e a tragédia andam de mãos dadas, o designer mineiro conhece como poucos a cidade onde vive e gosta de desconcertar, tanto que na parede da loja imprimiu: “Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartões. Um nome... estranho. Eu, etiqueta.”

Aqui ficam as dicas de Fraga para curtir sua cidade:
Restaurantes: Xapuri (Rua Mandacaru, 260, Pampulha), de comida regional  — Fraga também gostava muito do Aurora, do chefMauro Bernardes, mas este acabou por fechar em 2010, para pena de muitos, (inclusive eu que ali jantei certa vez e gostei muito do ambiente festivo, da música de fundo e das cores; gostei menos da comida, confesso).

Botecos: Família Paulista (Rua Luther King, 242, Cidade Nova), famoso por suas couvinhas recheadas com feijão tropeiro, e o Kobes (Rua Professor Raimundo Nonato, 31, Horto/Santa Tereza), que funciona numa garagem e possui cardápio criativo.
Acrescento eu: Fraga costuma ser um dos jurados do Comida di Buteco, que este ano, a par de outras cidades brasileiras, decorre em BH até 15 de Maio.

Antiquários e artistas plásticos: Galeria Selma Albuquerque (Rua Antônio de Albuquerque, 885), Velho Armazém (Rua Itapecerica, 613, Lagoinha), instalado num velho casarão que só por si já é um regalo, ou Leo Santana (atelier em Macacos, tel. 31 9279 1957), escultor responsável pela estátua de Drummond no Rio de Janeiro.

Museus: Histórico Abílio Barreto (Av. Prudente de Morais, 202, Cd. Jardim, encerra às segundas), onde elege também o Café de Museu, Inhotim (http://www.inhotim.org.br), em Brumadinho, Artes e Ofícios (Pç. Rui Barbosa, encerra às segundas) e Giramundo (Rua Varginha, 235, Floresta, às terças, quartas e quintas), com cerca de 350 bonecos criados por Álvaro Apocalypse, o mais importante marionetista do Brasil.

Livraria: Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 275, Savassi), espaço com café e um bom entendedor em livros.

25.4.11

#pousada de charme: bendito seja, praia do espelho (BA)


[Salão na entrada da pousada (foto PSR/Rotas) e alguns dos bangalôs onde ficam os 11 quartos (foto de JMS)] 

A praia do Espelho, eleita como uma das mais bonitas do Brasil, encontra-se num dos trechos mais desejados do litoral sul da Bahia. A viagem de carro a partir do centro de Trancoso, o vilarejo baiano que ganhou o mundo, leva cerca de uma hora e faz-se quase sempre em estrada de terra batida, mas nem mesmo essa ligeira contrariedade tem travado sua “democratização” no auge do Verão.


A crescente popularidade levou a prefeitura local a cometer alguns erros, entre eles a adoção de um modelo importado de outras bandas, que tentou substituir a calma e a sofisticação do pé descalço por um turismo massificado e de “pé de chinelo” sem modos ou compostura. 


[Praia do Curuípe, a orla mais bonita do Espelho (foto de JMS) e outra perspectiva do hall (foto de Giral Fotoviveiro de Projetos)]


Não julguem, porém, que saí do Espelho de mau humor. Nem poderia. Como ficar insensível a uma língua de areia clara, bordejada de um mar muito azul e quente domado por recifes, de um lado, e de uma linha de falésias, coqueiros e pequenos rios que formam enseadas pitorescas, do outro?


A carioca Maria Thereza da Costa, designer de moda, também não conseguiu. Depois de anos veraneando no condomínio vizinho Outeiro das Brisas, ponto elitista com direito a pista para aviões e helicópteros privados, ela acabou comprando um terreno à beira-mar, na orla direita do Espelho — conhecida como Curuípe, a mais bonita e tranquila — para fazer sua estreia na hotelaria.


Se estabelecimentos como a Pousada do Baiano fizeram dos gazebos com camas de dia e almofadas de chita a imagem de marca do Espelho, a Bendito Seja “subiu a parada”. Inaugurada em 27 de Dezembro de 2009, tive oportunidade de a visitar pouco tempo depois e de ser um dos primeiros a escrever sobre ela. Desde logo percebi que a esta pousada sobrava potencial para devolver um certo charme perdido à praia do Espelho e atrair um outro padrão de hóspedes, pelo que não me surpreendeu que, em sua edição de 2011, o "Guia Quatro Rodas" a tenha distinguido com o prêmio "Pousada do Ano".




[No sentido horário: poltrona colorida num dos quartos (foto de JMS); quarto Turquesa (Foto PSR/Rotas); mesa montada no gramado (foto D.R.); chef Felipe Espírito Santo (foto D.R.); panorama geral da pousada (foto D.R.)]

Com uma arquitetura aberta e decoração apurada, a Bendito Seja não tem mais do que 11 quartos, com vista para o mar, batizados com nomes sugestivos como Turquesa, Azul noite, Ouro, Chocolate, Lavanda, Batom ou Uva. Nenhum é igual ao outro, mas, comum a todos eles, que mais parecem casas de bonecas, são mordomias como camas king size, frases de celebridades locais bordadas nas colchas, lençóis de linho egípcio, telas LCD, bases para iPod, máquinas de café Nespresso, chuveiros duplos e banheiras de hidromassagem ou ainda Internet wireless. 


Maria Thereza cuidou de cada detalhe, escolhendo peças como os grandes potes, trazidos de Belmonte, ou a cabeça do Buda, enorme, que adornam os jardins, e rodeou-se de boas parcerias. Rico Araújo, ceramista, é disso exemplo, sendo de sua autoria as aplicações de azulejo, a lembrar Gaudi, que encontramos pela pousada. Como o é também o jovem chef Felipe Espírito Santo, que, depois de umas férias no Brasil, assumiu o bistrô Bendito Seja. Menino do Rio, Felipe completou sua formação na prestigiada École Grégoire Ferrandi, em França, pelo que na pousada pratica uma cozinha contemporânea que, à primeira vista, pode até parecer demasiado sofisticada para ambiente praiano, mas se revela suficientemente leve e inspirada para convencer. Apetece dizer “Amém”.

Praia do Curuípe, 5, Bairro do Trancoso, Porto Seguro (BA), tel. (73) 3668 5031, diárias entre R$770 e R$1070

22.4.11

#restaurante: paraíso tropical, salvador (BA)

[Beto Pimentel, grande plano (foto R.S.), dá as boas-vindas (foto PSR/Rotas) no Paraíso Tropical (foto JMS) com seus famosos sucos espessos de frutas, que mais parecem sorvetes (fotos D.R.)]


A cozinha baiana é uma atração à parte para quem visita a Bahia em geral e Salvador em particular. Por norma, os baianos são conservadores no paladar e avessos a fusões gastronômicas, o que os leva a não se aventurarem com facilidade em novos sabores e texturas. Nos últimos anos, porém, o cenário vem mudando aos poucos e uma das coisas que não me passou desapercebida na minha última visita à capital baiana foi, precisamente, o trabalho desenvolvido por alguns chefs de primeira linha que, sem perderem de vista a matriz local, têm sabido inovar e agradar ao mesmo tempo, o que não é, convenhamos, tarefa fácil.


Entre eles, um nome se destaca: Beto Pimentel, à frente do Paraíso Tropical, várias vezes eleito como o melhor restaurante baiano da Bahia e do Brasil e o único brasileiro a ser agraciado pela Commanderie des Cordon Bleus de France (a mais prestigiada escola culinária do mundo). Para conhecer o restaurante, mas também a figura que é Beto Pimentel, desloquei-me de propósito ao bairro de Cabula, afastado do centro histórico de Salvador. Fora de mão e do circuito turístico, chegar até lá de táxi — não sou o primeiro a constatá-lo — não é fácil nem barato, mas não há praticamente músico ou estrela das novelas da Globo que não conheça o lugar.


Chamar "lugar" ao Paraíso Tropical é não fazer jus a sua grandeza. Na verdade, o restaurante é apenas a porta de entrada de uma considerável granja onde Pimentel, formado em agronomia, cultiva os frutos e as flores que depois usa na preparação dos pratos e na decoração do espaço. 


Com uma gargalhada que é sua marca registrada, Pimentel, desde logo, se revela um ótimo anfitrião e um contador incansável de piadas, muitas delas associadas ao fato de ter 23 filhos e de ter ficado viúvo quatro vezes.  Também não foi talhado para pressas. Nada mais justo, pois um almoço no Paraíso, que nos faz trocar a cidade pelo campo, é coisa para saborear sem pressas e sem olhar (muito) para o relôgio.

[Moqueca, grelhados e frutas no mel, carros-chefe do Paraíso Tropical (fotos D.R.)]
Quando ali estive, o espaço aberto passava ainda por algumas reformas, mas a idéia era que ficasse ainda mais colorido, confortável e informal. Rústico, mas com estilo próprio.  Para abrir o apetite, os sucos de frutas, famosos por apresentarem uma consistência de sorbet, são para comer à colher e não se esquecem facilmente (provei um de manga e não resisti a dar mais umas colheradas num outro de mangaba). Seguiu-se uma moqueca deliciosa e pude perceber nela parte das novidades que Pimentel tem vindo a incutir na cozinha regional. Para tornar suas moquecas mais leves, ele, por exemplo, usa água de coco em vez do leite e a flor do dendê em vez do óleo (muito mais pesado e indigesto). E há ainda os frutos verdes que acrescenta à receita, como seja o maturi (castanha de caju verde), a flor de vinagreira, a pitanga ou o biri-biri (também conhecido por limão-da-Índia). 


Só não comi mais porque queria ter ainda estômago para outro carro-chefe do Pimentel, que são seus grelhados de polvo, pescada amarela, camarão e lagosta, acompanhados, mais uma vez, de frutas grelhadas. E a expressão "os olhos também comem" ganha um outro sentido nesta hora.


Para encerrar o festim, existem algumas mousses, mas o mais comum é comer frutas grelhadas no mel ou ao natural. E ai de quem saia sem carregar numa sacola algumas dessas mesmas frutas que sobraram do almoço. 

Rua Edgar Loureiro, 98-B, Resgate (Cabula), Salvador, tel. (71) 3384 7464, aberto das 12.00 às 23.00, uma média de R$50-R$70 por pessoa

21.4.11

#roteiro rápido: as delícias de pirenópolis (GO)

[No topo, da esq. para a dir.: casario colonial, rio das Almas, cachoeira Lagoa Azul; em cima, da esq. para a dir.: Pousada dos Pireneus, pamonhas, Pireneus Café (fotos de JMS, exceto pamonhas, D.R.)


Conheci Pirenópolis, ou Piri tout court, num fim-de-semana comprido por obra e graça de dois feriados bem certeiros, como acontece agora. A meio caminho entre Brasília e Goiânia, o pequeno município goiano, fundado por Bandeirantes no século XVIII, não é tão conhecido e promovido como Paraty, no Rio de Janeiro, ou Tiradentes, em Minas Gerais, mas não lhes fica a dever nada em matéria de charme, conforto, interesse histórico ou entorno natural. 


Que minha avaliação pessoal não induza, todavia, os mais distraídos em erro. Piri não é mais um segredo faz tempo e nos finais de semana, com ou sem feriado, é invadida por hordas de forasteiros que ali procuram um retiro bucólico, mas ainda assim animado.


Cercada pela serra dos Pireneus — uma liberdade poética que se deve aos imigrantes catalães, que, saudosos das montanhas que separam a Espanha da França, a batizaram assim —, a cidade possui um bom punhado de pousadas, fazendas e até uma estalagem (que eu saiba), mas uma das mais bonitas e preparadas é, precisamente, a que responde pelo nome de Pousada dos Pireneus Resort.


Os quartos são simples e funcionais, mas seu atrativo maior está nos jardins bem cuidados, com uma boa área de lazer que inclui piscina e até passeios a cavalo, na decoração colonial e no fato de apresentar uma ótima relação qualidade-preço (sobretudo nos pacotes, que podem incluir na diária, além do café da manhã, o jantar em sistema de bufê). Outra coisa a favor, eu acho, é ter crescido e evoluído para uma infra-estrutura de hotel sem perder o intimismo que se espera de uma pousada.


O casario colonial, conservado com brio e pintado de cores alegres, a ponte pitoresca sobre o rio das Almas, onde é comum haver gente a banhar-se, as várias igrejas, a feirinha na praça do Coreto, o antigo Theatro de Pyrenópolis e o Santuário de Vida Silvestre Vagafogo (para observar a fauna e flora típicas do cerrado) são, a par da animação noturna da rua do Rosário (conhecida por rua do Lazer), os maiores cartões postais de Piri.


Cumprido o roteiro "básico, recomendo que, pelo menos, visite uma das muitas cachoeiras que existem nas redondezas. A maioria, senão a totalidade, fica em fazendas que cobram entrada, mas vale muito a pena, sendo preciso apenas levar calçado confortável para caminhar, boa disposição e roupa de banho. Sem tempo para muito mais, elegi a Fazenda Bonsucesso, a curta distância da cidade, mas com 1300 metros de trilha e seis cachoeiras (como a da Lagoa Azul que aparece numa das fotos).

[Picolé de cagaita e broa do Pireneus Café (fotos de JMS)]

Deixei para o final, não digo o melhor, mas o que me deixou mais saudades. Além do ter encontrado algum artesanato interessante, sobretudo tapetes e colchas tecidos em algodão, eu vibrei mesmo foi com a variedade de doces e compotas caseiros — procurar as lojas da Da. Dora (rua Benjamin Constant, 50) e da Da. Enoi (rua do Bonfim, 61) —; os picolés artesanais Fruta Pura, produzidos em Goiás, com sabores do cerrado tão inusitados como cagaita (perguntei depois a muitos amigos meus brasileiros e nem eles conheciam o fruto), a mangaba ou o araticum; as pamonhas assadas, doces ou salgadas (com queijo e linguiça), das irmãs Ordean e Ana Floriano, que as servem diariamente numa lojinha simples do Centro (Pamonharia Souza, av. Pref. Sizenando Jayme, 24); ou ainda as broas deliciosas — que me fizeram recordar as de Portugal, à base de erva-doce — servidas no Pireneus Café (na esquina da rua dos Pireneus com a pça. do Coreto), um ponto de encontro  também ele imperdível para ficar a ver a vida passar, sem correrias, em Piri.
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